O Censo 2022 do IBGE mostrou que 20,9% dos brasileiros vivem de aluguel, maior proporção desde 1980. Entre jovens de 25 a 29 anos, o percentual sobe para 30,3%. Essa porcentagem seria reflexo das mudanças que ocorreram no mercado imobiliário nos últimos anos, no Brasil.
Tais mudanças dificultaram o acesso à moradia para millennials e para a geração Z, mas o desejo de comprar imóvel permanece forte entre todas as faixas etárias. É o que revela uma pesquisa feita por brasileiros e publicada em julho na revista International Journal of Urban and Regional Research.
O artigo “A ilusão da flexibilidade: aspirações habitacionais nas gerações no mercado formal do Brasil”, de Rafael Kalinoski e Mario Prokopiuk, da PUC-Paraná, se concentra no mercado imobiliário formal. Os autores analisaram como o “sonho da casa própria” foi se modificando entre gerações.
Os boomers (1946-1964) cultivaram o desejo de comprar um imóvel como sinônimo de status, visão originada das classes médias americanas. A geração X (1965-1984) cresceu em meio a crises como a do petróleo de 1973 e Guerra Fria, tornando-se pragmática e transformando habitações em ativos financeiros.
Já os millennials (1985-1999) herdaram o ideal paterno de casa própria como estabilidade, mas enfrentam empregos precários e instabilidade financeira, resultando em maior dependência do aluguel e permanência prolongada na residência familiar.
“90,3% dos entrevistados expressaram preferência por adquirir imóvel”, afirmam os autores, considerando a pesquisa com 545 pessoas. Entre millennials e geração Z, 94% mantêm esse objetivo, especialmente para a velhice.
Apenas 16% dos compradores em 2023 eram millennials, enquanto 82% pertenciam a gerações anteriores. A geração Z representou apenas 2% das aquisições, dependendo fortemente de heranças familiares devido aos altos preços.
Ainda segundo o artigo, investidores individuais e fundos imobiliários concentraram recursos em pequenos apartamentos voltados às classes médias urbanas, restringindo opções de propriedade e tornando o aluguel mais viável.
Mesmo políticas públicas históricas – do BNH (Banco Nacional de Habitação) ao Minha Casa, Minha Vida – não impediram tais mudanças. A crise de 2008 intensificou o cenário: jovens de diversos países, incluindo Brasil, passaram a adiar a formação familiar e priorizar estilos de vida alternativos, reduzindo a busca por imóveis próprios.
O artigo cita ainda outros estudos, como o Kim Mckee, da Universidade de St. Andrews, publicado em 2017. O estudo aponta que a flexibilidade atribuída aos jovens não é consciente.
Jovens britânicos, por exemplo, vivem de aluguel por períodos extensos e permanecem mais tempo na casa dos pais devido à “desigualdade intergeracional” nos ganhos econômicos.
Segundo Mckee, o poder de compra reduzido dos jovens adultos atuais, comparado às gerações anteriores em estágios similares da vida, é o verdadeiro motor do crescimento dos aluguéis entre millennials e geração Z, não uma preferência por mobilidade.
Fonte: Nexo